segunda-feira, 20 de junho de 2011

A pipa no céu...

A vida exige leveza, assim como a viagem. 
A estrada fica mais bonita quando podemos olhá-la sem o peso de malas nas mãos. 
Seguir leve é desafio.
Há paradas que nos motivam compras, suplementos que julgamos precisar num tempo que ainda não nos pertence, e que nem sabemos se o teremos.
Temos a pretensão de preparar o futuro. 
Eu tenho. Talvez você tenha também. 
É bom que a gente se ocupe de coisas futuras, mas tenho receio que a ocupação seja demasiada.
Temo que na honesta tentativa de me projetar, eu me esqueça de ficar no hoje da vida. 
Os pesos nascem desta articulação. 
Coisas do passado, do presente e do futuro. Tudo num tempo só.
Há uma cena que me ensina sobre tudo isso. Vejo o menino e sua pipa que não sobe ao céu. 
Eu o observo de longe. Ele faz de tudo. 
Mexe na estrutura, diminui o tamanho da rabiola, e nada. 
O pequeno recorte de papel colorido, preso na estrutura de alguns feixes de bambú retorcidos se recusa a conhecer as alturas.
O menino se empenha. Sabe muito bem que uma pipa só tem sentido se for feita para voar. 
Ele acredita no que ouviu. Alguém o ensinou o que é uma pipa, e para que serve. 
Ele acredita no que viu. Alguém já empinou uma pipa ao seu lado. 
O que ele agora precisa é repetir o gesto. 
Ele tenta, mas a pipa está momentaneamente impossibilitada de cumprir a função que possui.
Sem desistir do projeto, o menino continua o seu empenho. Busca soluções. 
Olha para os amigos que estão ao lado e pede ajuda. 
Aos poucos eles se juntam e realizam gestos de intervenção... Por fim, ele tenta mais uma vez. 
O milagre acontece. Obedecendo ao destino dos ventos, a pipa vai se desprendendo das mãos do menino. 
A linha que até então estava solta vai se esticando. 
O que antes estava preso ao chão, aos poucos, bem aos poucos, vai ganhando a imensidão do céu.
O rosto do menino se desprende no mesmo momento em que a pipa inicia a sua subida. 
O sorriso nasceu, floresceu leve, sem querer futuro, sem querer passado. 
Sorriso de querer só o presente. 
As linhas nas mãos. A pipa no céu...





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